sexta-feira, 19 de maio de 2017

O conhecimento socializado nos museus favorece a democracia e a paz social.

https://www.revistamuseu.com.br/site/br/artigos/18-de-maio/18-maio-2017/2841-o-conhecimento-socializado-nos-museus-favorece-a-democracia-e-a-paz-social.html                                                   

                                                        
Começo meu artigo em comemoração ao Dia Internacional dos Museus de 2017 com imensas preocupações.
O Brasil vive uma grave crise política. A destituição de uma presidenta eleita ameaça as instituições democráticas. Embora tenha assumido o vice da chapa, assistimos a destruição do programa político eleito em 2014.
Tem sido difícil encontrar fatos a serem comemorados no âmbito dos museus.
O primeiro ato destruidor foi justamente a extinção do Ministério da Cultura. Embora a reação popular tenha conseguido revertê-lo, ficou evidente a inexistência de uma política cultural programática para a área.  Em um ano já foram trocados dois Ministros na Cultura. Contingenciamentos têm gerado demissões de funcionários levando a fechamento de museus.
As crises nos colocam inevitavelmente diante da realidade mais crua. Elas são o apogeu dos estranhamentos. São momentos que exigem enfrentamentos, superações e transformações. Fazem-nos refletir para compreender e transformar. Não suportam covardia, medo, egoísmo, engano ou acomodação. As crises não enfrentadas e o passado não reconciliado assombra o presente e fatalmente nos condena a repetir indefinidamente os mesmos erros.                                         
O tema do Dia Internacional dos museus 2017 é inspirador para o momento.
 “Museus e Histórias Controversas: dizer o indizível em museus”.  Ao colocar em relevo o papel dos museus como centros pacificadores das relações entre os povos, o tema destaca, o como aceitar um passado doloroso constitui um primeiro passo para contemplar um porvir comum sob o signo da reconciliação.
Já tivemos crises políticas e golpes de Estado no Brasil. O período da ditadura de 64 só recentemente começou a ser revelado, enfrentado e musealizado. Ainda não nos reconciliamos efetivamente com esse período tão traumático de nossa história. Ao contrário, tivéssemos refletido exaustivamente sobre esse período nos museus talvez estivéssemos mais preparados para a crise que vivemos hoje e não ouviríamos tantas pessoas pedindo a volta da ditadura.
A crise política escancara a tensão social fazendo surgir importantes e positivos movimentos sociais sejam por direitos humanos, empoderamento das mulheres, afirmações de gênero e raça, acolhimento mais humanizado das migrações humanas e luta contra o capitalismo desumano que abala o convívio pacífico e solidário entre os povos.
É um riquíssimo momento para pensarmos a função social dos museus como instrumentos de conhecimento, de reflexão e de exercício crítico. O conhecimento socializado nos museus favorece sem dúvida nenhuma a democracia e a paz social.

Em 1999 iniciei a organização do museu do Banco Sudameris que tem origem em 1900 na Banque Francaise et Italienne pour L Amerique Du Sud, de propriedade, por sua vez, da Banca Commerciale Italiana e a Banque de Paris et Des Pays Bas. Em 1998, o Sudameris obteve o controle acionário do Banco América do Sul, fundado em 1940 por imigrantes japoneses. Hoje esses bancos não existem mais. Eles foram incorporados pelo ABN AMRO Real.
Tanto o Banco Sudameris como o Banco América do Sul foi constituído por comunidades de imigrantes italianos e japoneses respectivamente. Os fundadores italianos do Sudameris no Brasil já tinham conquistado fortuna e criaram uma sólida aliança com o sistema bancário na Europa, sobretudo na Itália.  A comunidade japonesa ao contrário, encontrou na fundação do Banco América do Sul, criado originalmente como Casa Bancária, uma forma de cooperação para o desenvolvimento de seus empreendimentos. Não eram ricos, muito pelo contrário, esses pequenos agricultores uniram seus parcos recursos a servir como empréstimo bancário para seus cooperados. Não havia dono ou patrão. Era de todos e para todos e a diretoria era eleita entre seus pares.
O Banco América do Sul possui as duas mais preciosas obras de Manabu Mabe. São telas de grandes dimensões confeccionadas pelo autor com sacos de arroz. Mabe era um modesto trabalhador rural e pagou com as telas dívidas que tinha com o Banco. Essa além de outras são histórias que estão por traz das valiosas coleções de arte das instituições bancárias.
Como a maioria dos museus de Bancos, também o Sudameris, apesar de possuir riquíssimo acervo arquivístico e documental propicio ao conhecimento crítico da história, por vezes polêmicas e curiosas quando não saborosas, não é isso o que tem acontecido. A maioria se limita a exibir numismática, moedas, talões de cheques, carteiras de correntistas, galeria de presidentes e conselheiros e instalações físicas.  Cheguei a propor à FEBRABAN a organização de um Museu dos Bancos no Brasil, mas não houve muito interesse. 
Em museus de empresa também encontramos alguns obstáculos à musealização de suas histórias. Encontrei em minha carreira profissional várias histórias silenciadas em inacessíveis fotos de trabalho infantil, relatórios de greves de trabalhadores, lixos industriais esgotados nos rios, fabricas abandonadas com poços abertos e perigosas ferragens enferrujadas e até poluição da Baia de Todos os Santos por dejetos industriais. Fatos e fotos não exibidos em seus Centros de Memória.
No Memorial do Imigrante encontrei também silêncios ensurdecedores.  
No Museu da Pessoa contrariamente, aprendi que a história oral é uma das formas mais solidárias e libertárias a revelar vivências. Trata-se de dar voz à diversidade e aos verdadeiros protagonistas da história.
Dar voz aos imigrantes além da história oficial no Memorial do Imigrante, hoje Museu da Imigração, possibilitou a construção de um debate permanente trazendo luz para o fenômeno migratório que assistimos nos dias atuais.
As exposições em museus muitas vezes pecam por não conseguirem transmitir ideias. Neste sentido não passam de antiquários ou, no caso dos museus de arte, reduzidos a galerias.
O patrimônio edificado e os museus de cidade desafiam nossa capacidade de musealização. Nesses casos somente o trabalho multidisciplinar poderá dar conta.
A cidade de São Paulo e seu patrimônio edificado, para o olhar desavisado, se mostrarão como resultado natural do crescimento e do desenvolvimento econômico. Cumpre-nos desvendar os conflitos entre o interesse público e o privado, a representação coletiva, seus benefícios e perdas.
Perdidas em algum arquivo histórico público ou privado esperam para ser encontradas respostas às velhas e às novas questões.
A sociedade tem tomado nas mãos grandes bandeiras de luta. A nossa será sempre desvendar todas as versões.  

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