sexta-feira, 19 de maio de 2017

Museus de Cidade - Um projeto em permanente construção



                                                                      
                                                                       Campinas, 18 de maio de 2017
          Museus de Cidade - Um projeto em permanente construção

Musealizar Cidades
                                                          Por quê?
                                                          Como?
                                                          Para quem?

Inicialmente vou contar um pouco da minha experiência.

Em 1984 assumi a diretoria da Divisão de Iconografia e Museus da SMC.
Qual a situação encontrada?

A Divisão administrava:
  • As casas-museus entre elas as casas bandeiristas como a Casa do Bandeirante, Sitio da Ressaca, Casa do Tatuapé, Casa do Sertanista, Sítio Morrinhos além da Casa do Grito e do Monumento à Independência, o Solar da Marquesa de Santos e o Beco do Pinto. Em 1954, por ocasião do quarto centenário da cidade de São Paulo, as casas bandeiristas haviam sido recuperadas e decoradas com mobiliário colonial mineiro dos séculos XVII, XVIII e XIX como camas de dossel, cozinha, salas de jantar e de visita completas, etc.

Com base em pesquisas em inventários, relatos, iconografia da época e trabalhos arqueológicos, pudemos verificar que aquela cenografia existente passou por 30 anos ao público, uma falsa realidade. Os inventários falavam em 3 colheres, 2 pratos de cerâmica, 3 redes, um pilão, banquinhos e moinhos. Os arqueólogos encontraram vestígios de fogueira no centro do cômodo principal concluindo que ali era o local de cozimento de alimentos e de refeições.
Desmontamos a cenografia e recolhemos o acervo de mobiliário.
Enfrentamos questionamentos e tivemos a oportunidade de estabelecer a verdade histórica.
  •  A DIM detinha um importante arquivo de negativos criado em 1935 quando Mário de Andrade criou o Departamento de Cultura e que incluía os famosos negativos de vidro com imagens desde 1860 e as coleções de Militão, Becherini e Gaensly.

  • No alto do prédio Martinelli havia uma exposição fotográfica organizada pelo Julio Abe. Eram painéis fotográficos tipo museu de rua, colocados estrategicamente nos terraços da cobertura do prédio. As fotos de São Paulo antiga do acervo de negativos colocados exatamente em frente a sua localização hoje na cidade de forma a estabelecer a comparação da paisagem urbana e sua transformação ontem e hoje.

Essa exposição era a intrigante, provocativa e inspiradora semente do Museu da Cidade.
Recuperamos o processo administrativo que criava o Museu da Cidade neste local. Havia um texto do Murilo Marques primoroso com considerações teóricas, mas ainda não se configurava como projeto de museu.

PRESSUPOSTOS CONCEITUAIS

Fui a primeira museóloga contratada na Prefeitura. Tínhamos então uma equipe multidisciplinar formada basicamente de historiadores, fotógrafos e arquitetos.
Uma equipe multidisciplinar foi fundamental para o desenvolvimento do Projeto do museu. Historiadores por si só davam conta das pesquisas históricas, com longos textos, citações de fontes e bibliografia, mas não davam conta da pesquisa museológica. A vida inteira eu disse que uma exposição museológica não é um livro em pé. Ninguém lê um livro, em pé em um museu. Por outro lado, a pesquisa museológica parte da pesquisa histórica para dar voz à cultura material, à iconografia, aos documentos e objetos tridimensionais, como meio de contar história.
Na época não se falava em visão e missão como também em salvaguarda e comunicação. Falávamos em preservação e divulgação.

O objeto deste museu era uma metrópole. Uma megalópole.

A tipologia – um museu de história e sociedade.

História de uma cidade complexa, multicultural caracterizada principalmente pelo seu desenvolvimento em dois eixos: a industrialização e a imigração.  
Um edifício-museu, por maior que fosse não conteria uma metrópole.  Não pelo tamanho, mas pela redundância afinal a cidade estava ali como produto histórico materializado.

Começava a se configurar um museu pela cidade e não uma cidade dentro do museu. Musealizá-la seria empreender ações virtuosas de: evidenciar, desvelar, apontar nela mesma, na cidade, as suas memórias, suas camadas sedimentadas no espaço e na geografia, no tempo, na ocupação e na dinâmica das relações sociais. Teríamos que mostrar o processo de construção para além do produto histórico.
Já existiam os conceitos de eco-museus.  Chegamos a considera-los, porém os descartamos como explicarei mais a frente.

Concebemos um museu de múltipla sede com um centro de referência e núcleos museológicos. Hoje seria talvez denominado museu em rede.
Os núcleos podiam ser geográficos (museus de bairro ou de comunidades) ou temáticos incluindo os sítios arqueológicos.
Julio Abe já trabalhava os museus de rua, com história de bairros e também temáticos.

Vivíamos na época o inicio da redemocratização do país após a ditadura militar.
Envolvidos na grande euforia da redemocratização organizamos exposições, do tipo museu de rua, com temas da História política. História das eleições, História das Constituintes, da Mulher na Política, do 1º de Maio, etc. Foi uma revolução. Os museus brasileiros não chegavam até a história contemporânea, com exceção aos museus de arte. Nem o currículo escolar, a bem dizer.
Eu havia anteriormente criado o Museu do Teatro Municipal e que foi também integrado como núcleo museológico do Museu da Cidade.
Começamos então a “legendar” a cidade em conjunto com a Câmara Municipal. Eram legendas com informações histórico-culturais junto a placas de nome das ruas, nos prédios e logradouros onde viveram pessoas de destaque ou locais em que aconteceram fatos históricos e movimentos políticos e sociais.
Incentivávamos também a organização de museus comunitários dando assistência técnica.
Implantamos o Serviço Educativo que evidentemente consistia em passeios guiados na cidade começando pelo circuito Centro Histórico.
Por outro lado nos engajamos em movimentos preservacionistas, num verdadeiro protagonismo militante. Participamos da criação do COMPRESP, da Comissão de preservação do IAB, abraçamos a igreja da Penha, a casa do arquiteto Gregori Warchavchik que veio a ser tombada como Casa Modernista, o Parque do Ibirapuera, demos assistência técnica na implantação do museu Adoniran Barbosa e de museus de bairros.

Muitas vezes estudantes e pesquisador não sabem onde pesquisar. O Centro de Referência era também uma forma de facilitar a vida do pesquisador.
A cidade já continha arquivos e museus organizados. Estes deviam ser referenciados na sede do Museu da Cidade. Para isso o trabalho deveria ser colaborativo entre nossos técnicos e a sociedade. E assim foi com universidades, associações e jornais de bairro, sindicatos, etc.
O Centro de Referência na verdade é um centro de estudos permanente podendo inclusive subsidiar políticas públicas. Neste sentido um museu de cidade não é lugar de contemplação, mas sim um agente de conhecimento, conscientização e transformação da cidade.

Por quê?

“Além de demonstrar a importância da imagem subjetiva da cidade para o planejamento urbano, Lynch[1] nos diz que a legibilidade é também instrumento de ação sobre o ambiente. Uma percepção adequada de nosso entorno, de nosso posicionamento relativo na cidade e no mundo é fundamental tanto para identidade individual quanto para a noção de coletividade. Localização, posicionamento, individuação, identificação e delimitação são operações que tem um papel chave na formação das subjetividades pessoais e politicas. Aquilo que somos é determinado em larga medida por nossa localização na sociedade e no mundo. (HARVEY, 2001[2])              
Os museus de cidade são territórios privilegiados como potencializadores da função social dos museus. Como museus de história e sociedade compreendem a cidade como polis, ou seja, politizam as relações sociais evidenciando nossa condição de cidadãos conscientes ou não de cidadania.

Mauricio Segall fala em museologia militante. Atos de preservação e musealização.
“ Tentar responder, portanto, qual é sua função social, significa tomar posição e jogar fora sua pretensa neutralidade, e a dos objetos, e tentar assim combater os Micróbios malvados deste mal da pós-Modernidade, já epidêmico neste fim de Milênio, que resulta numa tácita e implícita anuência a todas perversas Mazelas sociais da atualidade.
Mesmo se certamente poucos, em sã consciência, presumem que o patrimônio cultural e artístico está aí para ser preservado só pela volúpia da preservação, ou como um fim em si mesmo, ou como santuários de objetos sacralizados, a meu ver continuam não respondidas satisfatoriamente as questões - conservar o patrimônio cultural e artístico, por que e para quê? Divulgá-lo, como e para quem? Eis uma segunda questão!
A hipótese que defendo é que, além do seu evidente potencial de fruição, seja, sobretudo, para preencher uma função conscientizadora, isto é, que também os Museus sejam militantes no apoio à luta do ser humano pela conquista da liberdade substantiva, ou seja, da livre escolha de alternativas.  Isso porque a liberdade tem tudo a ver com o conhecimento em um processo dialético de apreensão da realidade. ” [3]

Se a função social dos museus os coloca em seu papel de representar a sociedade possibilitando o conhecimento, a ação museológica dos Museus de Cidade é política na medida em que são instrumentos poderosos de formação de cidadania e de desalienação do individuo.
Assim a escolha dos pontos na cidade, sejam edifícios, sítios, ruas e casas a serem legendados, são políticas.

Bem. Era um grande desafio.

Aqui faço um parêntese para estabelecer a diferença entre musealizar e museificar.
O ato de museificar carrega uma conotação redutora quase que pejorativa. Seria como mumificar, congelar, interromper ou suspender a vida. Por outro lado musealizar é preservar e revelar os objetos testemunhos como signo, ou seja, seu significado como um ponto no processo dinâmico da evolução e da sua historicidade.
Na aldeia a história é comunitária e endógena, ou seja, construída e transmitida por e para um povo, como por exemplo, as aldeias da África cuja tradição os grios é passada oralmente entre as gerações.
 Se na aldeia todos se conhecem, o que reforça a identidade comum, na cidade moderna o estranhamento e as diferenças tornam as construções culturais mais complexas. Seus signos estão estruturados como camadas sedimentadas, muitas vezes invisíveis, à espera de um olhar arqueológico. Construídas na maioria das vezes a partir de um povo originário sedentário se desenvolvem como resultado dos movimentos migratórios determinados pelos mais variados motivos como conflitos étnicos, acidentes naturais, questões econômicas, políticas, etc.

As cidades não podem ser musealizadas apenas como artefato.  A cidade morta é ruína.  Musealizar cidades é desvelar, comunicar e dar expressão à dinâmica das ações e das relações sociais em permanente movimento de destruição e construção de signos que se sedimentam se superpõem ou se mesclam.
Esse é o desafio da museologia de cidades.
Por outro lado, musealizar é também construção cultural com-temporânea, ou seja, marcada e contaminada no tempo em que ela se dá.

Sabemos que os museus têm origem na musealização das coleções particulares da elite proprietária e que, historicamente, incorporaram as histórias e signos comunitários, populares, políticos, etc.

A ação de musealizar a cidade acrescenta um novo e extemporâneo componente cultural à própria história da cidade. Trata-se aqui de compreender como elas foram preservadas. Se o sentido de preservar é universal o mesmo não acontece com a ação de musealizar. A ação de musealizar não é neutra. E esta é a questão que me intriga.
Conversando com o filho fotógrafo, especialista em fotos de arquitetura e cidades, ele, representante de outra geração que não a minha, vejo-me diante da seguinte questão: o que é para mim e o que é para as próximas gerações o ato de preservar. Ele observa que várias cidades europeias foram “congeladas” para turistas como bens de consumo em nossa modernidade capitalista com seus souvenirs made in China. Ao filho fotógrafo interessa captar e registrar aquilo que representa ou o que expressa a vida cidadã, ou melhor, a dinâmica das vivências na cidade. Ele procura as cidades vivas e percebe a artificialidade das bonitinhas e palatáveis se transformando em parques temáticos para turistas. Neste sentido elas são preservadas apenas como artefatos.  São cidades museu e não museu da cidade. Aqui eu tentei explicar a referência que fiz acima sobre os eco-museus.

Há uma impossibilidade ontológica na tentativa de musealizar a realidade histórica com todos os seus componentes.
Seriam a musealização e os museus ações inglórias, sonhos onipotentes?
É preciso que se saiba que a musealização das cidades será sempre artificial. Como os filmes, os livros históricos e os próprios documentários, é a imaginação do autor (curador) que se impõe ao público como mediação do real.
Recuso-me a acreditar que passei minha vida em uma atividade inglória.
Corrigindo rotas nessas reflexões necessárias, passo pela ideia de que a própria história e, em última análise a memória seriam inglórias se pretendessem conter e expressar na totalidade a realidade dos fatos históricos. 
Sou salva recuperando a própria ideia de tempo, de memória e principalmente de criatividade. Como um ciclo, chego aos elementos essenciais da museologia.

Museus não são escolas onde professores praticam o ensino formal. No museu o ensino é informal. Museus são cenários privilegiados onde se dá a relação profunda entre o homem e o objeto testemunho.
A museologia não é ciência exata, embora se utilize (de algumas) delas em suas ações de conservação e exposição de acervos. A ação de musealizar tem uma dimensão artística. Na tentativa de dar expressão aos objetos museológicos, ela cria. Assim ela quer provocar a imaginação e a memória de seu público. Por si só ela não realiza o passado, mas na imaginação do público o sonho é glorioso.
Não basta vivermos o aqui e agora, mas, porque morremos e não somos eternos, construímos eternamente a eternidade.

Desafios do século XXI

Frederic Jamenson, crítico literário e teórico marxista, conhecido por sua análise da cultura contemporânea e da pós-modernidade diz que “Diante da velocidade e do ritmo das transformações do mundo atual, estamos perdendo a capacidade de nos situarmos cognitivamente no espaço”.[4]
Recentemente o Museu da Cidade de São Paulo apresentou a exposição fotográfica “Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo”, do fotógrafo Tuca Vieira, baseada na problemática de Jameson. http://www.tucavieira.com.br/Atlas-fotografico
Esse trabalho é uma tentativa de representação da cidade através da fotografia. É uma tentativa de mapeamento cognitivo. Ciente da impossibilidade de um mapeamento pleno, o fotógrafo buscou alguns caminhos no universo criativo das artes visuais e da literatura, com suas narrativas, na interpretação e na representação da cidade.
Essas fotos tentam recuperar a capacidade perdida do homem contemporâneo de perceber a cidade em que vive. As pessoas hoje caminham apressadas. É preciso flanar para conhecer a cidade.

Os Museus de Cidade são projetos em permanente construção. São obras abertas. Podem e devem se valer da literatura e da poesia (Meditação do Tietê de Mario de Andrade), da fotografia, de documentários e dos depoimentos orais de história de vida.
É fundamental o trabalho em parceria com a sociedade organizada em comunidades, universidades, escolas, empresas privadas, associações de moradores, jornais, etc  lembrando que também os zoológicos e jardins botânicos são museus.
Além da história, os museus de cidade passam a recorrer a outras disciplinas como a antropologia, arqueologia, sociologia, psicologia social, geografia, geologia, arquitetura e urbanismo.
Campanhas cidadãs e movimentos de preservação serão apoiados pelos Museus de Cidade. Cidadãos e cidadãs reconhecidos coletivamente serão destacados. Assim artistas, intelectuais, políticos esportistas, cientistas e trabalhadores em geral.
Documentar e monitorar a Arte pública, esculturas ao ar livre e obras de arte em dependências dos prédios públicos, Monumentos e Memoriais podem e dever fazer parte de suas atribuições.

Quanto às novas tecnologias, penso que devemos utilizá-las amplamente. É a nova linguagem. Hoje contamos com avião-scanner que mapeiam a cidade eliminando a vegetação. É a arqueologia sem pás. Temos o GPS, a internet e as redes sociais, mídia digital e apps. As novas tecnologias oferecem suportes inesgotáveis à museografia.
Se quisermos nos comunicar efetivamente com o público das novas gerações não podemos ignorar as novas tecnologias. 
Por outro lado a revolução tecnológica a meu ver tem provocado alguns equívocos. Estamos denominando museus aquilo que seriam parques temáticos. Não existem museus sem acervo. Edifícios contendo realidade virtual no lugar de acervo histórico cultural não são museus.
Não confundir museus que registram e preservam acervo de cultura imaterial em suportes tecnológicos. São as fitas e vídeos cassetes. CDs, CDRooms, DVDs, HDs Junkbox, etc. O Museu da Pessoa é um exemplo disso. Ele detém uma reserva técnica que abriga registros de História oral. Assim também os Museus de Imagem e de som. A tecnologia muda aceleradamente, mas os fundamentos da museologia permanecerão insubstituíveis.








[1] Kevin Lynch urbanista “A Imagem da Cidade” 1960
[2] David Harvey Spaces of capital
[3] Teoria e Debate nº 36 - outubro/novembro/dezembro de 1997
publicado em 13/05/2006
por Maurício Segall*
[4] Frederic Jameson

Um comentário:

  1. Obrigado por compartilhar um pouco de sua trajetória profissional e reflexões sobre museus de cidades.

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